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domingo, janeiro 06, 2013

A Cidade Velha tradição de luta e resistência cultural no Carnaval de Belém.




Por Marcelo Bastos*
A questão cultural sempre assume proporções maiores e levam mais tempo para serem assimiladas no cotidiano, não se pode impedir um curso de rio sem planejamento, recursos e destruição do meio ambiente, da mesma forma o processo de construção cultural se dá pela impulsão progressiva de diferentes fatores, mas dada as circunstâncias os fatores que certamente influenciam a retirada do carnaval do centro histórico de Belém trás em seu cerne o preconceito racial, o revanchismo contra a cultura popular e pior, se é que é possível, uma intricada e velada luta de classes, que não admite compartilhar suas ruas, seus valores com a invasão de “bárbaros em alegria”.
Deve-se compreender que isso não é uma exclusividade dos abastados do centro velho da cidade de Belém, não vem de muito tempo antes, mesmo do Brasil Império, mesmo durante a construção histórica do carnaval, o que se via de um lado eram fantasias, alegorias e batalhas de confetes compunham os desfiles das luxuosas sociedades carnavalescas do começo do século XX. Muita coisa vinha diretamente de Paris e era rapidamente consumida por quem tinha dinheiro suficiente para frequentar as lojas sofisticadas da rua do Ouvidor. Colombinas, arlequins e pierrôs pareciam ter expulsado da festa os antigos mascarados, diabinhos, dominós, caveiras e zé-pereiras (grupo de foliões tocando bumbos e outros instrumentos), que saíam às ruas nos dias de Entrudo.
Do outro lado, sempre que o mês de fevereiro se aproximava, a expectativa pelo Carnaval dividia espaço com as críticas ao Entrudo. Entrudo era a brincadeira com água, farinha e máscaras que desde o tempo da colônia garantia a diversão dos foliões. Primitivo, inconveniente, pernicioso e selvagem eram alguns dos adjetivos usados pela imprensa, por políticos e intelectuais para defini-lo. Tal incômodo com o jogo da molhação se explicava pelo risco de que os “moleques”, a “ralé”, o “zé-povinho”, termos que designavam negros e pobres, extrapolassem os limites da brincadeira e se julgassem em pé de igualdade com os senhores, damas e senhoritas brancas.
Nesse período o processo de formação do povo brasileiro ainda estava em pleno processo de miscigenação, a senzala ainda era uma realidade, vista a olhos nus, negros, mulatos e índios não eram ditos como cidadãos, aliais nem o conceito de cidadania era definido como é nos dias de hoje, e as leis nem de longe se assemelhavam como as que hoje temos, á época circulares, decretos administrativos e punições, como multas e prisões, passavam a tratar especificamente dos mecanismos para reprimi-lo. Todo esse aparato legal foi mobilizado para convencer os festeiros a abandonar aquela forma de diversão.
Bem sabemos que o Carnaval brasileiro não se tornou a cópia da sua matriz europeia. De fato a influência europeia estava longe de ser suficiente para suprimir expressões das tradições negras que o Carnaval trazia a público. Mesmo no Rio de Janeiro, onde a vigilância e a repressão eram mais ostensivas, os ranchos, que surgiram nos fins do século XIX, e os cordões, que há muito comandavam a farra, garantiam o grande público. Rancho é como se denominavam os grupos de festeiros que, reeditando um costume português, se apresentavam durante as celebrações católicas, especialmente o Natal e a festa de Reis. Eles representavam os pastores em viagem a Belém para visitar o menino Jesus. Eram grupos que iam de casa em casa cantando e cumprimentando os moradores. No Nordeste e no Pará os ranchos também são chamados de reisados e, os que mais se destacam, ostentam uma variedade de vestimentas e adornos.
Leopoldo Nogueira Santana Jr., em sua dissertação de Mestrado para a UEPA, em 2008, intitulada “Quem é do Rancho tem amor e não se amofina: saberes e cultura amazônicos presentes nos sambas-enredos da Escola de Samba Rancho Não Posso Me Amofiná”, trás uma importante contribuição para o entendimento de nosso carnaval, para o autor no Pará “o entrudo foi trazido pelos colonizadores portugueses, repetiam-se na região as práticas vividas no restante do país, como arremesso de líquidos entre os foliões, duelos que incluíam desde água perfumada a misturas mal cheirosas transportadas nos mais diversos tipos de recipientes. As autoridades eclesiásticas consideravam essas atitudes como “grotescas”, “absurdas”, e de “mau gosto”. Logo trataram de condenar tais atos, que, segundo os religiosos, invadiam o tempo da Quaresma, ações passivas de penitências para religiosos envolvidos em tais manifestações”.
O que se percebe ao estudar mais aprofundamente o tema percebe-se que está em jogo quando se decidi não mais ter o carnaval na Cidade velha é apenas o deslocamento de uma antiga luta, entre aqueles que queriam um carnaval de luxo, onde apenas pares se encontram em bailes com máscaras e um ordem respeitável aos padrões do status quo vigente, e do outro lado os foliões negros, mulatos, homens e mulheres, que brincam o carnaval com liberdade, onde expressam livremente seus posicionamentos políticos, com críticas aos governantes e as mazelas sociais.
O carnaval de rua na Cidade Velha é a expressa anárquica e brilhante de uma parcela que não se dobrou aos ditames da cultura hegemônica dos abastados, mas sim se rebelam e usam o carnaval para canalizar sua rebeldia, suas críticas, as vezes acidas por demasia, inebriam com liberdade e democracia que participa do carnaval de rua.
Pensando bem sabe o que não mudou, a reclamação continua a mesma, o fedor, seja dos tempos do Entrudo, quando reclamavam das misturas mal cheirosas transportadas nos mais diversos tipos de recipientes, ou de hoje quando reclamam da urina, que a chuva de toda tarde leva para o rio, que como é biodegradável não afeta o meio ambiente.
O que afeta mesmo é a alegria anárquica do folião do centro histórico de Belém, transgredindo assim as normas cultas de civilidade europeia, mas nosso carnaval sempre foi de resistência, devemos manter nossa tradição de luta e assim, nesse ano, vamos ter um dos melhores carnavais dos últimos tempos, por que quem estará lá brincando o carnaval será herdeiro dos anos de luta contra o preconceito, será herdeiro de uma força maior que move as os foliões, pois as paixões, a justiça social e luta por um mundo melhor encontra eco no carnaval de rua, brincado nas mesmas ruas que nossos ancestrais, que foram presos, martirizados, penalizados por querer apenas se distrair e brincar sua cultura imortal.
Viva a cultura do carnaval de rua!
Viva a alegria anárquica e democrática dos foliões!

Marcelo Bastos assina o blog Dilacerado.