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quinta-feira, outubro 26, 2017

A mãe que vai enterrar o filho que teve dentro de uma cela da ditadura militar

Hecilda Fonteles Veiga, perdeu hoje o filho que teve dentro de uma cela imunda da ditadura militar.

Por Diógenes Brandão

Falecido na madrugada desta quinta-feira (26), vítima de um infarto, após uma complicação causada por uma broncopneumonia, Paulo Fontelles Filho, mais conhecido como Paulinho Fontelles, nasceu na prisão, durante a Ditadura Militar. 

Sua mãe, Hecilda Fonteles Veiga, era estudante de Ciências Sociais quando foi presa, em 1971, em Brasília, com cinco meses de gravidez. Hoje, vive em Belém (PA), onde é professora do curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Pará (UFPA).

Num depoimento reproduzido na 36ª audiência pública da Comissão da Verdade de São Paulo, a mãe de Paulo contou: 

Quando fui presa, minha barriga de cinco meses de gravidez já estava bem visível. Fui levada à delegacia da Polícia Federal, onde, diante da minha recusa em dar informações a respeito de meu marido, Paulo Fontelles, comecei a ouvir, sob socos e pontapés: ‘Filho dessa raça não deve nascer”.

Depois, fui levada ao Pelotão de Investigação Criminal (PIC), onde houve ameaças de tortura no pau de arara e choques. Dias depois, soube que Paulo também estava lá. Sofremos a tortura dos 'refletores'. 

Eles nos mantinham acordados a noite inteira com uma luz forte no rosto. Fomos levados para o Batalhão de Polícia do Exército do Rio de Janeiro, onde, além de me colocarem na cadeira do dragão, bateram em meu rosto, pescoço, pernas, e fui submetida à 'tortura cientifica', numa sala profusamente iluminada. 

A pessoa que interrogava ficava num lugar mais alto, parecido com um púlpito. Da cadeira em que sentávamos saíam uns fios, que subiam pelas pernas e eram amarrados nos seios. As sensações que aquilo provocava eram indescritíveis: calor, frio, asfixia. 

De lá, fui levada para o Hospital do Exército e, depois, de volta à Brasília, onde fui colocada numa cela cheia de baratas. Eu estava muito fraca e não conseguia ficar nem em pé nem sentada. 

Como não tinha colchão, deitei-me no chão. As baratas, de todos os tamanhos, começaram a me roer. Eu só pude tirar o sutiã e tapar a boca e os ouvidos. Aí, levaram-me ao hospital da Guarnição em Brasília, onde fiquei até o nascimento do Paulo.   

Nesse dia, para apressar as coisas, o médico, irritadíssimo, induziu o parto e fez o corte sem anestesia. Foi uma experiência muito difícil, mas fiquei firme e não chorei. Depois disso, ficavam dizendo que eu era fria, sem emoção, sem sentimentos. Todos queriam ver quem era a fera' que estava ali.

Assista o vídeo com a entrevista com a professora, militante, mãe e esposa Hecilda Fonteles Veiga.



Paulinho Fonteles morre aos 45 anos e recebe homenagens

Paulinho Fonteles recebe centenas de homenagens póstumas de amigos, partidos, lideranças e veículos de imprensa.

Por Diógenes Brandão

O comunista Paulo Fonteles Filho foi acometido por uma broncopneumonia e faleceu aos 45 anos, vítima de um infarto fulminante, na manhã desta quinta-feira (26). Seu pai, Paulo Fonteles, tinha a vida relembrada através de um dedicado trabalho no Instituto Paulo Fonteles de Direitos Humanos criado por ele. 

Paulinho deixa uma grande lacuna na luta pelos Direitos Humanos e no resgate da história dos movimentos sociais no Pará. 

Seu corpo será velado na Assembléia Legislativa do Estado do Pará (ALEPA) e o sepultamento no Cemitério de Santa Izabel.

Em sua última postagem nas redes sociais, Paulinho escreveu no dia 7 de outubro: 


Entre as homenagens e despedidas, o blog destaca a publicação do jornalista Antônio José Soares, no Facebook, que resgatou um pouco do legado do comunista paraense: 

"Paulo Fonteles Filho, o Paulinho Fonteles, 45 anos, ex-vereador de Belém pelo Partido Comunista do Brasil (PC do B). É filho do deputado Paulo Fonteles, assassinado no exercício do cargo, por defender posseiros, e de Hecilda Veiga, militante comunista e dos direitos humanos. Os dois foram presos pela ditadura militar e Paulinho nasceu no cárcere. 

Paulinho vinha dedicando anos de sua vida para esclarecer pontos obscuros da Guerrilha do Araguaia, sendo integrante da Comissão da Verdade. Denunciava tortura, violência contra posseiros etc. Era um verdadeiro comunistas. 

Era filho de Paulo Fonteles, professor, advogado e político do Partido Comunista do Brasil (PC do B), morto em junho de 1987. Eleito deputado estadual em 1982, ao denunciar diversas vezes na Assembleia Legislativa do Pará as listas de marcados para morrer (onde também estava presente), Fonteles atraiu cada vez mais a admiração dos setores das classes populares por sua atuação de oposição a latifundiários, em especial do sul do Pará e ligados à União Democrática Ruralista (UDR). 

Em 1986 foi candidato à Deputado Federal Constituinte, mas não foi eleito. No final da manhã de 11 de Junho de 1987, às proximidades da entrada da Alça Viária, no município de Marituba, região metropolitana de Belém, foi executado com três tiros na cabeça. O crime em 2013 completou 30 anos e o principal acusado de ser o mandante do do assassinato até hoje está em liberdade, mesmo possuindo diversos processos contra si.

Como foi vereador de Belém, a CMB também emitiu nota. Leia: 

"A Câmara Municipal de Belém lamenta a morte do ex-vereador Paulo Fonteles Filho. Paulo tinha 45 anos e era mais conhecido como Paulinho Fonteles. O defensor dos direitos humanos, blogueiro, escritor, poeta e membro da Comissão Estadual da Verdade do Pará faleceu na madrugada desta quinta feira, 26. Há 15 dias, ele estava internado com quadro de pneumonia grave. Como político iniciou a carreira aos 29 anos, participando da 14º e 15º legislatura da CMB, que corresponde aos anos 2001/2008 pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB). O ex vereador deixa esposa e quatro filhos. O velório será realizado na Assembléia Legislativa do Estado do Pará, na Praça Dom Pedro I, na cidade velha, a partir das 11h . O sepultamento será nesta sexta feira, 27, no cemitério Santa Isabel, na av. José Bonifácio, as 10h."

O jornal O LIBERAL publicou em seu portal
"O ex-vereador de Belém, Paulo Fonteles Filho, faleceu na madrugada desta quinta-feira (26), vítima de um infarto fulminante em casa. O corpo do ativista político deve ser velado na Alepa (Assembleia Legislativa do Pará) e o enterro será nesta sexta-feira (27) no Cemitério Santa Izabel. 
O presidente municipal do PC do B, Michel Sodré, lamentou a morte por meio de nota : "O PCdoB está de luto e todas as  nossas atividades suspensas. Paulinho era um dos melhores entre nós, amigo, companheiro, solidário, altaneiro, abnegado, dedicado a luta do povo pondo a sua vida constantemente em risco na defesa dos direitos humanos num Estado dominado pelo latifúndio e pela pistolagem. Sua trajetória nos deixa um legado de sonhos, esperança e luta. A toda sua família, um abraço fraterno e amoroso do PCdoB", diz o documento.
O ex-vereador era filho de Paulo Fonteles, político do PC do B, que foi assassinado à tiros em 1987, no município de Marituba, após denunciar irregularidades fundiárias no Estado. O suspeito de ser o mandante do crime permanece em liberdade."

O deputado Carlos Bordalo (PT-PA) também se pronunciou através da sua fanpage no Facebook, dizendo:

"É com profundo pesar que noticiamos o falecimento de Paulo Fonteles Filho, companheiro incansável de lutas, parceiro na construção de um país democrático e, mais do que isso, pai, marido e irmão amoroso. Nosso querido Paulinho faleceu na madrugada desta quinta-feira, vítima de um infarto fulminante, no Hospital Porto Dias, onde estava internado desde o dia 7 de outubro, após complicações decorrentes de uma broncopneumonia. O velório será realizado no hall principal da Assembleia Legislativa, a partir das 13h, e o sepultamento será amanhã, no cemitério de Santa Isabel. Filho do advogado e ex-deputado estadual Paulo Fonteles, fundador da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos, Paulinho nasceu no cárcere, onde sua mãe, a socióloga Hecilda Veiga, foi torturada. Foi vereador de Belém e levou adiante o legado do pai, como defensor dos trabalhadores do campo e presidente do Instituto Paulo Fonteles de Direitos Humanos, estando à frente de uma série de projetos, como livro e filme sobre a trajetória do pai, assassinado há 30 anos. Não temos palavras para descrever a enorme tristeza neste momento. Paulinho seguirá vivo em nossos corações e mentes, como exemplo de homem honrado, que dedicou sua vida à construção de uma sociedade mais humana. Nossos profundos sentimentos à família, em especial às queridas amigas Hecilda Veiga e Angelina Di Angelis, à minha companheira Juliana Fonteles, aos irmãos e filhos de Paulinho. Até um dia, camará!".

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