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segunda-feira, outubro 20, 2014

Incontinência emocional, a nova doença social



Além da necessidade patológica de compartilhar absolutamente tudo, perdemos a capacidade de retenção de qualquer fato, informação, pensamento ou emoção.

Incontinência é uma palavra engraçada. Lembra a continência dos militares, só que ao contrário. Mas é fácil olhar para a palavra e ver que continência está ligada diretamente ao verbo conter. Conter-se todo mundo sabe bem o que é, é a capacidade de optar por reter ou liberar alguma coisa, seja um pensamento, uma emoção, uma informação, comentário ou líquido fisiológico. Quando você não consegue reter sua própria urina você perde a continência, a capacidade de contenção, daí a expressão triste da ~incontinência urinária~, a perda involuntária do xixi.

Perder a capacidade de retenção das próprias coisas do corpo é triste. Se tem alguma coisa que a gente faz questão de ter é controle sobre o funcionamento da fisiologia. Ninguém gosta de usar fraldas, nem no começo nem no final da vida. E, no entanto, nossa sociedade em rede praticamente perdeu a capacidade de se conter, de reter qualquer coisa. Tudo precisa ser compartilhado. A fome, a unha encravada, o trânsito diário, a perda do chaveiro, you name it. Tudo. Como frequentadora do Twitter há vários anos tenho visto um pouco de tudo nesse sentido, sem contar os compartilhamentos incessantes de todos os detalhes via Facebook e, quando imagéticos, no Instagram.

Não há mal nenhum em explorar todas as ferramentas à exaustão. Publicar fotos dos pratos e lanches, quem nunca. Porém, com o uso constante, vamos perdendo a noção de limite, de barreira. Sim, porque o limite, seja do muro, da porta, da beira da piscina ou da borda da panela, é o que define o que está contido. A caneca que contém o café tem a louça como barreira que mantém o café, digamos, contido dentro. Se a louça se quebra, o café se espalha.

Nós, que um dia já fomos grãos inteiros, depois pó, depois fomos coados e viramos café, estamos agora vaporizados, em estado gasoso, totalmente incontidos. E, quando retidos, seja no congestionamento ou numa reunião, se houver o menor buraquinho de conexão, vazamos.

Se antes não podíamos escapar, como um gás do botijão, agora não conseguimos mais nos reter. Perdemos a opção, a disciplina de escolher entre segurar um segredo ou contá-lo. Contamos tudo. A coisa vai se degringolando de tal forma que há pessoas que compartilham chagas em imagens, esmolando atenção e solidariedade como mendigos da Idade Média expondo seus aleijões em troca de dinheiro. É pesado dizer isso, mas a metáfora é válida.

Essa incontinência social, a incapacidade de reter qualquer coisa que lhe venha ao corpo ou à mente, está se espalhando como uma epidemia. Já vi gente que, ao esgotar seu repertório de ideias, emoções e fatos diários, mas ainda com o afã de compartilhar qualquer coisa só para estar presente e se fazer visto, começa a contar pensamentos que a avó falecida tinha quando era jovem, sonho que o vizinho do tio de crisma contou que um dia teve quando era menino. Se isso ao menos descambasse para a criatividade ficcional, virando uma história, seria um sucesso. Mas não, é só produção de ruído para não ficar a sós consigo mesmo.

Para o incontinente social a pior coisa do mundo não é a solidão, mas a companhia de si mesmo. Como se ficar a sós com sua própria pessoa fosse uma condenação, algo horrível a ser evitado.

Essa incapacidade de reter fatos para análise, alimenta o impulso animal, aumenta a produção de coisas impensadas e, portanto, passíveis de grave arrependimento, fere os outros, contamina o meio ambiente e geral lixo infinito.

Não acho que tenha que haver uma regulamentação geral de nada na Internet, só de cada um mesmo. Cada pessoa poderia fazer aquelas coisas antigas como parar para pensar antes de falar e escrever, contar até dez para não explodir em ira, respirar fundo e questionar a si mesmo sobre a validade do que está publicando nas redes.

Porque do jeito que estamos indo, publicando insanamente cada detalhe visto, vivido, percebido ou relatado, como se não pudéssemos nos ausentar ou manter as coisas no âmbito do privado, ainda vai igualar a incontinência emocional à todas as outras e vamos todos nós, em qualquer idade, evacuar nossa vida privada na frente de todo mundo.

Por Rosana Hermann originalmente em http://migre.me/mndpS.