sexta-feira, maio 06, 2016

O barqueiro que deixou todo mundo a ver navios



Por Diógenes Brandão

Entre as belas ilhas gregas, havia a que abrigava uma comunidade humilde, formada basicamente de pescadores e nesta comunidade morava um barqueiro, reconhecido por sua perícia em navegar pelo mar Egeu. Seu barco era o maior e melhor da ilha onde nascera e nele é que os demais habitantes atravessavam para a Pólis grega, onde compravam condimentos, cereais e roupas entre outras especiarias que não produziam em seu habitat. Era com esse barco, que seu pai ensinou as técnicas de carpintaria e navegação, que o nosso personagem ganhava a vida, embora sem fausto. E com ele, ajudava sua comunidade a navegar e se comunicar com o resto do mundo. 

Um dia, uma forte tempestade atingiu a praia onde o barco ficava ancorado e o destruiu em pedaços que rapidamente foram levados com as ondas revoltas. Os poucos recursos que o barqueiro havia acumulado, não o permitiam comprar uma nova embarcação e construir outro levaria meses. Como ele viva sozinho e o ganho de seu trabalho nunca havia sido suficiente para contratar um ajudante ou acumular dinheiro, sabia que o tempo que ficarai sem sua ferramenta de trabalho seria lancinante. 

O motivo de passar por esse aperreio? É que cobrava um valor módico pelas viagens em que transportava seus vizinhos e amigos, muitas vezes isentando aqueles que o convenciam a fazer cortesias em troca de algo no futuro. Agora que estava sem barco e sem condições de continuar trabalhando, amargaria uma realidade atroz.

Como já esperava, o tempo em que ficou trabalhando para construir outro barco foi de enorme adversidade. Para se alimentar, acordava mais cedo do que o habitual e sentava-se em um penhasco, de onde jogava uma linha com anzol e esperava pacientemente que um peixe beliscasse a isca.

Um dia, ao terminar de pescar um único pargo, levantou-se e seguiu pra sua choupana e lá preparou a Psarosoupa que logo mais seria seu almoço. Depois, sentou-se à beira da praia e colocou-se a cortar a árvore que seria transformada no casco da sua nova embarcação e percebeu a chegada de um dos seus clientes, um velho pescador, dono da única taverna da ilha e quem há anos usava o barco do nosso protagonista para atravessar todos os dias para a cidade e lá comprava produtos para revender na ilha.

O comerciante perguntou quanto tempo ainda seria preciso para que o barqueiro construísse um barco novo e ele respondeu sem meias palavras: Antes de morrer, eu deixo este barco para a comunidade.

Obsesso e aos berros, o velho comerciante passou a reclamar do prejuízo que a falta do barco causara a ele e a todos seus clientes, entre os quais aqueles que precisavam sair da ilha e já não contavam mais com o conforto e o baixo custo oferecido pelo barqueiro, sem seu barco. 

Eis que então, em um surto de ira, o barqueiro então resolve levantar-se, jogando ao mar o machadinho, a serra e o formão que usava na construção de seu novo barco, fitou o comerciante devolvendo-lhe com uma frieza atroz, a seguinte resposta: 

- De hoje em diante, quem quiser sair e voltar para esta ilha em um barco como o meu, terá que preparar o seu ou comprar um na cidade, pois sou barqueiro e marceneiro por opção, mas posso ser e fazer o que eu quiser. Minha única obrigação é com o que me faz feliz.