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terça-feira, novembro 20, 2012

A história de um poeta negro e sindicalista


No site do SINDPD-PA.

No dia da Consciência Negra, o SINDPD-PA foi em busca da história de vida de um trabalhador negro para compor a publicação de uma matéria alusiva à data e encontrou um tesouro: Dois álbuns repletos de poesias, panfletos, jornais e poemas do escritor e jornalista autodidata, Edivaldo Parente.
Ex-presidente do sindicado e hoje aposentado há 12 anos como funcionário do SERPRO, o “Parente” como é mais conhecido, foi entrevistado em sua casa, no bairro da Sacramenta, pelo Diretor de Comunicação do SINDPD-PA, Edu Maciel, com quem teve uma conversa rica em detalhes, com a história de luta dos trabalhadores do SERPRO e demais empresas de processamento de dados do Pará, desde os anos 60.

Em entrevista à assessoria de comunicação do sindicato, Parente, o poeta-operário resgatou uma parte vibrante da história de luta dos trabalhadores no Brasil. No auge de seus 76 anos e dotado de uma memória invejável, disse na gravação: “Quando ingressei no serviço público, nós trabalhadores, não tínhamos consciência de nossa condição de explorados intelectual e fisicamente pelo governo militar e foi na busca de nossa união e organização, durante as reuniões que fazíamos, que aos poucos fomos reconhecendo que havia a luta de classes, percebendo as mazelas do capitalismo e a necessidade de nos organizarmos.”

Com sua Olivetti no colo, Parente relatou como foi enfrentar a Ditadura Militar e ajudar a organização dos trabalhadores, no tempo em que reivindicar direitos trabalhistas e melhorias salariais era tido como subversão e perturbação da ordem pública. Logo, a conquista da Carta Sindical, e por conseguinte, da fundação do SINDPD-PA, vindo assumir anos depois a presidência do mesmo, deu-lhe mais esperança e convicção de que lutar era importante e garantia vitórias e conquistas.

“Como ainda não existiam computadores, os digitadores da época eram perfuradores de cartões em maquinas da IBM garantindo assim o processamento dos dados das empresas públicas”, revela o sindicalista que sempre se assumiu como negro e usou a escrita como instrumento de luta e mobilização de sua categoria, bem como contra o preconceito e a descriminação racial, praticada até por outros negros que ocupavam cargos superiores e queriam igualar-se aos brancos que adotavam práticas racistas.
No final da entrevista, provocado por Diógenes Brandão, Assessor de Comunicação do SINDPD-PA, Edvaldo Azevedo Parente, concordou em doar seu acervo pessoal para o sindicato que na manhã desta terça-feira (20) assumiu o compromisso de publicar um livro e um blog com os textos do poeta que sempre sonhou e lutou por uma sociedade mais justa e igualitária.
Além do sindicato, nosso poeta protagonista também foi membro da APE - Associação Paraense de Escritores e do CEDENPA, bem como participou da fundação da CUT no Pará e em 1988, ano em que se comemorava o centenário da abolição da escravidão no Brasil e a Igreja Católica lançava a Campanha da Fraternidade: "Ouvi o clamor deste povo", com a temática negra, Edvaldo Parente escreve um poema arrebatador!

 






Confraternizando com o Negro

Antes de ser o ano do negro brasileiro...
Antes de ser (o negro) a frente de batalha,
Antes de (o negro) não ter sido liberto a cem anos atrás...
Antes de (o negro) enfrentar de frente s tonelagens dos pré-conceitos,

Entendemos que de nada adiantará “Campanha da Fraternidade” se continuarmos:

Viver sem amor,
Será o mesmo que viver sem afeto
Será morrer um pouco cada dia,
Será sofrer sorrindo da vida pela fé,
Será chorar sem consolo na escuridão,
Será ignorar porque respiramos.

Porque amar é contemporizar.
Amigo você sabe,
Há muitas formas de ser dar...
Amor aos nossos semelhantes
Que não se encontram em meio às multidões,
Amigo você sabe, ama-se,
Para renascermos na luta

Através de nossos filhos,
Fruto do mais belo amor,
E para continuarmos vivendo.
Sem violência sê possível,
Sem agressões morais ou o equivalente,
Sem os pré-conceitos divisores,
Sem diferenças de classes cor e raça,
Enfim, sem a malfadada intolerância,
Vamos pensar infinitivamente no amor,

E viver...!

Edvaldo Parente.