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terça-feira, dezembro 01, 2009

A origem do Mal - Parte I

Por Fernando Rodrigues

O Democratas nasceu de uma costela do PDS (ex-Arena, esteio da ditadura militar). Ainda com o nome de PFL, o partido sempre se apresentou como uma das forças motrizes responsáveis pela volta do país à democracia.

Adversários dos "demos" pensam de forma diferente. A sigla só teve senso de oportunidade. Em 1984, com a ditadura atolada no brejo, o grupo saltou fora do barco. Aliou-se às forças emergentes. Manteve-se mais tempo no poder.

A fórmula pefelista deu certo por muitos anos, quase duas décadas. Forte em oligarquias estaduais, nos grotões do país, o partido foi ficando. Em Brasília, praticou o quanto pode a genuflexão aos poderosos, um a um. Serviu a José Sarney, Collor e FHC.

Mas ninguém engana a todos o tempo todo. O PFL elegeu seis governadores em 1998. Caiu para quatro em 2002. Em 2006, ficou com apenas um: José Roberto Arruda, em Brasília, um ex-tucano renascido "demo" depois de ter caído em desgraça por causa de um escândalo anos antes -a violação do painel de votação do Senado.

Agora, Arruda entra em um buraco mais fundo. Há indícios claros de sua participação num esquema já chamado de mensalão do DEM em Brasília. É difícil haver explicação dentro da legalidade para a imagem do único governador "demo" recebendo um pacote de dinheiro, refestelado em um sofá, e respondendo: "Ah, ótimo".

No caso dos mensalões do PT e do PSDB, é bom lembrar, nunca apareceu imagem tão eloquente.

O Democratas encolhe a cada eleição. Foram 105 deputados eleitos em 1998. Uma queda para 84 em 2002. Só 65 em 2006. Hoje, prova do próprio veneno: a infidelidade partidária o desidratou e a bancada com meras 55 cadeiras.

Em 2010, ressalvada uma ou outra exceção, os "demos" devem aumentar a sua insignificância.


Pierre Verger - Exposição em Belém

O Museu de Arte de Belém (Mabe) abre nesta quinta-feira, 3, às 20h, a exposição “Pierre Verger - Uma ponte sobre o Atlântico”. Como parte da programação, na sexta-feira (4), às 9h, acontece a mesa de debate “A Diáspora Africana - Pierre Verger na Amazônia”, no auditório do Convento dos Mercedários. A exposição fica até o dia 31 de janeiro de 2010. 






Itapoã, Salvador.

Porto de Veleiros, Ver-o-Peso - 1948.  


O acervo fotográfico de Verger que estará aberto aos moradores e turistas de Belém a partir da sexta-feira, 4, são imagens sobre as conexões e a formação das novas sociedades resultantes das relações entre a África e a América, com destaque para as conexões que uniram o Brasil a algumas regiões da África. 

Tendo como foco de interesse as imagens registradas no Suriname em 1948, em sua maioria inéditas, esta exposição permite ao visitante uma abordagem sobre a temática que é carro-chefe das obras do artista: as Américas Negras. As fotografias ilustram perfeitamente o trabalho realizado sobre as questões afro-americanas. Neste trabalho, o Suriname –  e de modo geral as Guianas – se encontram no coração desta América Negra, no centro de um triângulo constituído pela América do Norte, América do Sul e Antilhas.

Pierre Verger registra com realidade e beleza os cultos afro-religiosos realizados nos terreiros de Candomblé das Guianas Suriname e Paramaribo. Na Amazônia, mas precisamente em Belém, a exposição conta com dez fotos de um terreiro de mina.

A obra fotográfica de Verger é reconhecida mundialmente tanto por suas qualidades estéticas quanto etnográficas. Nesta exposição, o visitante pode reconhecer facilmente associações de imagens que ilustram o fluxo e refluxo sobre o qual Verger tanto escreveu. Esta experiência etnográfica, humana e estética é parte integrante do processo de reconhecimento dos “afro-americanos”, de suas histórias e culturas, que estão intimamente ligadas ao continente africano, assim como de suas inegáveis influências na miscigenação das culturas americanas resultantes do impacto colonial.

Segundo a diretoria do Mabe, o objetivo da exposição é apresentar algumas imagens pouco conhecidas de Verger feitas na região das Guianas e da Amazônia, e, também, imagens que trouxeram o conhecimento e reconhecimento da cidade de Belém e de seu maior cartão postal, o Ver-o-Peso.


Serviço

Exposição “Pierre Verger - Uma ponte sobre o Atlântico”.
Local: Museu de Arte de Belém – Palácio Antônio Lemos (Praça D. Pedro II, Cidade Velha).
Abertura: 3 de dezembro, às 20h.
Período: até 31 de janeiro de 2010.
Horário: Segunda a Sexta, de 9h às 17h; sábados e domingos, de 9h às 13h.



Mesa de Debate

Tema: “A Diáspora Africana - Pierre Verger na Amazônia debate”
Local: Auditório do Convento dos Mercedários, na Rua Gaspar Viana, nº 125, bairro da Campina.
Horário: 9h às12h.
Presenças:
David Redon (Co-Curador da Exposição)
Prof. Dr. Aldrin Moura de Figueiredo 
Profª. Ms. Taissa Tavernard Luca
Bàbá Edson Catendê

Que seria dos ricos sem os pobres?

Por José Varella*
 
Fiz as contas e percebi que em 2010, caso aguente até lá, vou completar 50 anos de luta. Claro, sem heroismo, mas alguma curiosidade. Trata-se duma "cachaça" pela qual minha companheira me presenteou, com sutil puxão de orelha, com uma significativa estatueta de Dom Quixote de La Mancha...

Troféu da Utopia que trago próxima à "escrivaninha" junto a outras lembranças (dentre as quais uma centenária imagem de santa Rita de Cássia, cuja tradição familiar quer fazer crer que foi achada em campo de batalha, na guerra genocida do Paraguai, por meu bisavô paterno “voluntário da Pátria” arrastado do Pará para matar e morrer em nome da tríple aliança armada pela Inglaterra contra insolentes guaranis contrários as maravilhas do liberalismo.

Desculpem a pavulagem de caboco, mas exatamente no ano de 1960, aos 23 anos de idade, na cidadezinha de Ponta de Pedras, terra natal de Dalcídio Jurandir; acompanhado de conterrâneos em odor de ignorância política apoiados pelo vigário jesuíta da paróquia inventamos o pretensioso "Grêmio Cultural Marajó". Como se sabe, na América Latina onde tem vestígio de indio há jesuíta, para o bem e o mal. No caso marajoara, era pajelança de meia tijela mas dava para quebra a rotina à beira do rio com teatro mambembe na casa paroquial sem alternativa.

O grêmio era simples coletivo duma vagabundagem depois da sesta à sombra de seculares mangueiras plantadas pelo primeiro intendente do município, que marcava ponto na porta da taberna denominada "Casa Poronga", do "capitalista" do grupo. Desde então eu já fazia figura de “comunista” pelo simples fato de ser enamorado de cooperativas rurais e simpatizante da reforma agrária prometida pelo presidente-fazendeiro Jango Goulart.

Nós nos identificávamos como a "turma da Poronga", hoje a coisa poderia ser classificada por agentes da ordem como "gang". Felizmente, naqueles idos e vividos lugares do Fim do Mundo a gente estava apenas a meia maré de distância do paraíso. Criamos um tipo de senha : "eh da Poronga!", com que nos saudávamos uns aos outros.

Foi lá nas tardes mornas da Poronga, no extremo-norte dalcidiano; que nasceu o ingênuo "Grêmio Cultural" filho bastardo do analfabetismo político, pois que parido do engano quanto às intenções de um panfleto “galinha verde” (integralista) com nome de movimento águia branca, feito sob medida como arapuca para seduzir e capturar os sentimentos patrióticos da rapaziada desavisada... Mau começo de uma história torta pela parte que me cabe deste latifúndio. Só não me envergonho da mancada ideológica da mocidade, pois que acabei me encontrando em companhia de Dom Helder Câmara, outro desenganado que virou da água para o vinho. Me lembro de um relato especial que nos fez pensar sobre a necessidade de virar o jogo.

Disse um dos nossos que ouvira, por acaso, dois senhores "barões" sair do banho da maré, às 4 horas da tarde, horário do Inferno Verde; na ponte da Casa da Beira; mui contentes a filosofar (sem saber) sobre economia política. "Que seria de nós, os ricos – disse o primeiro barão dos tijucos – sem os pobres..." No que o outro barão das várzeas concordou, tacitamente, sem comentário com riso cínico estampado da cara gorda.

Ora, aquilo caiu como uma bomba em meio à "turma da Poronga"! Pra quem não sabe, "poronga" é a lamparina de querosene que seringueiro leva madrugada adentro na floresta escura para "tirar" seringa (extrair o látex). Era tão óbvia a diferença de classes na vila ribeirinha que causava espanto a gente não tivesse antes percebido o abismo do Fim do Mundo... Então, por acaso, minha avó deu-me a ler o romance "Marajó" escrito por tio ausente no Rio de Janeiro cujo nome fora marcado no catecismo do arcebispo do Pará, Dom Mário de Miranda Vilas-Boas, como prejudicial aos católicos.

A estória para o moço da Poronga foi história pura! Pois o sítio da tia ficava justamente no rio do romance e quando a velha contava era, paresque, a versão original do tio Dalcídio... Diacho! O "Marajó" completou 70 anos desde a escrita em Salvaterra e minha “derradeira” quixotada (campanha pela reconstrução da Casa de Dalcidio Jurandir e reestruturação do Museu do Marajó) é a conclusão daqueles dias da "turma da Poronga".

Moral da história: que seria dos ricos se não fossem os pobres aguentar a retranca? Espanta haver tanta riqueza para aliviar a pobreza mais cruel e os ricos ser acometidos de mania de suicídio coletivo transformando pobres distraídos na margem da história em miseráveis desesperados. Se Freud não explica, Marx todavia avisou.
 
* José Varella é de Belém-PA (1937), autor dos ensaios "Novíssima Viagem Filosófica", "Amazônia Latina e a terra sem mal" e "Breve história da gente marajoara.