![]() |
| Nota do Repórter 70, do jornal OLiberal, 08.07.2026 |
Há momentos em que uma pequena nota publicada em uma tradicional coluna política diz muito mais sobre o ambiente de poder do que uma reportagem de página inteira. Não necessariamente pelo que afirma, mas pelo momento em que é publicada, pela forma como é escrita e pelo veículo que decide colocá-la em circulação.
A coluna "Repórter 70", do jornal O Liberal, é historicamente conhecida no Pará por ser o principal termômetro das relações do Grupo Liberal com o poder público. As notas curtas frequentemente servem como "recados" políticos.
Foi exatamente essa sensação provocada pela publicação da coluna direcionada ao secretário de Estado da Educação, Ricardo Sefer, na edição desta quarta-feira, 08.
Não se trata aqui de discutir a figura do secretário ou de defender sua gestão. A questão é outra: o que representa, politicamente, quando um dos maiores grupos de comunicação do Pará escolhe abandonar o tom protocolar para adotar uma linguagem carregada de ironia, adjetivos e questionamentos pessoais?
A resposta talvez diga mais sobre o funcionamento do poder paraense do que sobre o próprio secretário.
Alguns elementos chamam atenção:
- utilização de apelido depreciativo ("Vorcaro paraense no tucupi"), numa comparação que busca associar Ricardo Sefer ao empresário Daniel Vorcaro como símbolo de influência econômica e política, mas envolvido em um dos maiores escândalos de corrupção da história do Brasil atualmente;
- perguntas retóricas ("trabalhou para quem?");
- ironia ("orgulho aos paraenses");
- afirmações sobre influência no Judiciário e Executivo sem apresentar, no próprio texto, elementos probatórios ou contextualização adicional;
- críticas pessoais misturadas com críticas administrativas.
Isso demonstra que o objetivo não é apenas informar, mas provocar impacto político, repercussão e desgaste à imagem do alvo.
Retórica de Ataque e Ironia (O "Morde e Assopra") O texto é construído inteiramente sobre uma retórica passivo-agressiva e altamente irônica. Ele utiliza falsos elogios para pavimentar acusações graves:
"Vorcaro no tucupi": O apelido é uma fusão do regionalismo ("tucupi") com o sobrenome "Vorcaro" (provável referência a figuras de extrema riqueza e rápida ascensão no mercado financeiro nacional, como a família controladora do Banco Master). Isso serve para pintar o alvo como um bilionário local desproporcional.
Falsos elogios: O texto o chama de "Habilidoso" e "muito competente", mas imediatamente subverte isso. A "habilidade" é ligada à arrogância "faz questão de falar que é a pessoa com mais influência", e a "competência" é anulada por uma acusação de negligência gravíssima "perdeu o prazo no litígio da Cerpa", causando prejuízo milionário ao Estado.
Insinuações e a Tática do Boato: A coluna usa uma tática clássica do colunismo político: espalhar um boato enquanto finge negá-lo. Ao dizer que ele é casado com a filha de Parsifal Pontes (outra figura de imenso peso político no Pará) e adicionar "que falam, porém não é verdade, tem milhares de cabeças de gado", o jornal planta a imagem de riqueza ilícita e latifúndio na mente do leitor, blindando-se juridicamente com o "não é verdade".
O Questionamento da Gestão Pública: A coluna aponta que, na posição de secretário de educação, ele teria prometido sete escolas em tempo integral e não entregou nenhuma. A pergunta retórica "trabalhou para quem?" é a acusação mais direta do texto, insinuando que, em vez de trabalhar para o povo (entregando escolas), ele estaria usando a máquina pública para beneficiar interesses privados (seus ou de terceiros). O encerramento com "Esta família é um 'orgulho'" (entre aspas) sela o tom de deboche.
A Leitura Política do Cenário - O contexto do Grupo Liberal
A família Maiorana (controladora do O Liberal e da TV Liberal) não pensou esta nota como uma peça de jornalismo fiscalizador; é um instrumento de pressão política.
Ricardo Sefer e a família de Parsifal Pontes pertencem ou já estiveram muito próximos ao núcleo duro, o círculo mais íntimo do poder do atual governo do Estado do Pará. Quando o jornal de maior circulação e afiliado à principal rede do país ataca o núcleo duro de forma tão visceral e pessoal (falando de casamentos, gado, influência no Judiciário e falhas bilionárias), isso é um claro aviso ao Palácio dos Despachos.
Como você pontuou, a empresa oscila entre afagar e atacar dependendo do "clima". Publicações como essa geralmente ocorrem em momentos de "clima tenso", que podem envolver:
Negociações de fatias do orçamento de publicidade estatal (verba pública).
Insatisfação do grupo de comunicação com decisões do Executivo.
Disputas por poder e influência nos bastidores do Judiciário e do Executivo (que o próprio texto acusa Sefer de monopolizar).
Em suma, a nota do jornal é um "tiro de canhão" editorial. Ela visa desgastar a imagem de um dos homens mais fortes do governo perante a opinião pública, funcionando como uma ferramenta de negociação e demonstração de força do império midiático local contra o Executivo estadual.





