Zezinho Lima acusa Éder Mauro de comandar esquema de devolução de recursos do SUS; deputado nega irregularidades e atribui ofensiva a uma articulação contra sua candidatura ao Senado e envolve prefeituras do interior que seriam participantes do esquema de desvio de recursos de emendas parlamentares. Assista a entrevista no fim da matéria.
Uma guerra interna no Partido Liberal colocou no centro da política paraense uma acusação potencialmente explosiva envolvendo emendas parlamentares destinadas à saúde. Em entrevista ao PoderCast, da TVC Pará, o vereador de Belém Zezinho Lima (PL) acusou o deputado federal Delegado Éder Mauro (PL-PA) de comandar um suposto esquema de cobrança de propina sobre recursos federais enviados a municípios do interior do estado.
A denúncia ganha peso político por partir de um integrante do mesmo partido e do mesmo campo ideológico do deputado. Zezinho é identificado com o bolsonarismo e pretende concorrer a deputado estadual. Éder Mauro, deputado federal em seu terceiro mandato, é uma das principais lideranças da direita paraense e aparece como pré-candidato ao Senado. A trajetória parlamentar do deputado é confirmada pelo perfil oficial da Câmara dos Deputados.
Durante o programa, Zezinho afirmou ter entregado à Superintendência da Polícia Federal, em Belém, um pendrive contendo extratos bancários, comprovantes de transferências, conversas e gravações. Segundo o vereador, o material indicaria que empresas prestadoras de serviços a prefeituras beneficiadas por emendas devolviam entre 20% e 30% dos recursos a pessoas ligadas ao grupo político do deputado.
O mecanismo descrito por Zezinho teria como figura central Lucas Rego de Brito, apontado como ex-assessor do gabinete do vereador Mayky Vilaça. De acordo com a acusação, Lucas recebia salário de aproximadamente R$ 2,6 mil, mas teria movimentado mais de R$ 1 milhão. O dinheiro, ainda segundo o denunciante, seria posteriormente distribuído a assessores e integrantes do grupo político.
No trecho em que descreve o suposto funcionamento do esquema, Zezinho menciona Bujaru, São Miguel do Guamá e Tucuruí entre os municípios que deveriam ser investigados. Ele afirma que empresas contratadas pelas administrações locais transferiam recursos para a conta do intermediário após receberem pagamentos realizados com verbas das emendas.
Imagens não substituem perícia
O programa exibe reproduções de supostos extratos, saldos bancários e comprovantes de Pix. Entre os valores mencionados estão uma transferência de R$ 50 mil e um saldo de aproximadamente R$ 1.264 milhão.
Não é possível identificar, apenas pelo vídeo, a origem do dinheiro, os contratos públicos correspondentes, os CNPJs das empresas ou a relação entre cada movimentação e uma emenda parlamentar específica.
Por isso, o conteúdo divulgado constitui, neste momento, material acusatório - não prova conclusiva de corrupção. A eventual confirmação dependerá da obtenção dos documentos diretamente das instituições financeiras, do rastreamento dos recursos federais e da comparação com contratos, notas fiscais e pagamentos feitos pelas prefeituras.
Transferências de R$ 20 mil alimentam contra-ataque
Um dos pontos mais sensíveis da disputa é admitido pelo próprio Zezinho. O vereador reconhece que ele, sua irmã e o presidente da Câmara Municipal de Belém, John Wayne, fizeram transferências que, somadas, chegaram a R$ 20 mil para Lucas.
Zezinho diz que o dinheiro foi uma ajuda financeira porque o ex-assessor estaria endividado, ameaçado e enfrentando problemas com apostas. Éder Mauro apresenta outra interpretação: sustenta que os valores teriam sido usados para pagar pela produção de um depoimento falso contra ele.
O deputado afirma ser vítima de uma ação coordenada destinada a desgastar sua pré-candidatura ao Senado. Segundo sua assessoria, comprovantes de Pix, conversas e registros de ligações demonstrariam a articulação. Sua equipe jurídica anunciou a análise de medidas judiciais. As duas versões estão detalhadas em reportagem do Estado do Pará Online.
Mayky Vilaça também negou envolvimento em corrupção e acusou Zezinho de traição política. O vereador denunciante, por sua vez, anunciou que pretende pedir a cassação de Mayky na Câmara de Belém.
Recursos da saúde somam mais de R$ 49 milhões
A dimensão financeira das emendas destinadas por Éder Mauro à saúde pode ser confirmada nos registros oficiais da Câmara dos Deputados.
Em levantamento realizado por este blog, em 2024, foram pagos aproximadamente R$ 18,78 milhões em emendas do parlamentar por meio do Fundo Nacional de Saúde. Em 2025, o valor pago chegou a cerca de R$ 18,76 milhões. Em 2026, até a atualização disponível em 23 de julho, haviam sido pagos R$ 11,66 milhões, de um total autorizado de R$ 20,31 milhões.
Somados, os pagamentos da saúde registrados entre 2024 e 2026 alcançam aproximadamente R$ 49,2 milhões. Os números podem ser consultados nas páginas oficiais referentes a 2024, 2025 e 2026.
Esses registros demonstram o volume de recursos públicos envolvido e reforçam a necessidade de apuração. Não demonstram, contudo, que tenha ocorrido desvio. Para estabelecer uma relação entre as transferências federais e as movimentações bancárias apresentadas por Zezinho, será necessário identificar os beneficiários de cada emenda, os fundos municipais de saúde, as empresas contratadas e o caminho posterior do dinheiro.
Denúncia implode discurso de unidade da direita
O impacto político decorre justamente da origem da acusação. Não se trata de um confronto entre governo e oposição, esquerda e direita ou PL e adversários históricos. A denúncia parte de um bolsonarista contra uma das figuras mais conhecidas do próprio bolsonarismo paraense.
A crise atinge o PL em pleno ano eleitoral. Éder Mauro pretende disputar o Senado, enquanto Zezinho busca espaço para concorrer à Assembleia Legislativa. O episódio pode interferir na montagem das chapas, na distribuição de apoio partidário e na relação do PL com outras forças da direita paraense.
O diretório estadual, presidido pelo deputado Joaquim Passarinho, anunciou uma apuração interna e prometeu observar o direito de defesa. A reação partidária mostra que o caso já ultrapassou a esfera de uma troca de ataques nas redes sociais. A nota divulgada pelo PL paraense informa que o resultado poderá levar à aplicação das medidas previstas no Estatuto e no Código de Ética da legenda.
Caminho pode chegar ao STF
Zezinho anunciou que levaria o material à Procuradoria-Geral da República, em Brasília, e assim o fez. Até a publicação desta matéria, não havia confirmação pública de que a Polícia Federal tivesse instaurado inquérito específico nem de que a PGR tivesse formalizado procedimento contra o deputado.
Se as autoridades encontrarem indícios relacionados à destinação de emendas durante o mandato, o caso poderá ser submetido à supervisão do Supremo Tribunal Federal, em razão da prerrogativa de foro do deputado. A própria PGR informa que atua perante o STF na abertura de inquéritos e ações penais envolvendo autoridades com foro.
Investigações sobre emendas já são acompanhadas pela Corte. Em fevereiro de 2026, por exemplo, o STF autorizou medidas da Polícia Federal em outra apuração que envolve parlamentares e suspeitas de direcionamento de verbas federais. O precedente não estabelece qualquer relação com o caso paraense, mas revela a dimensão nacional que investigações dessa natureza podem alcançar.
O que precisa ser esclarecido
Os próximos desdobramentos dependerão de respostas objetivas:
A Polícia Federal instaurou procedimento a partir do material entregue por Zezinho?
A denúncia foi efetivamente protocolada na PGR?
Os extratos exibidos são autênticos e integrais?
Quais municípios, emendas, fundos de saúde, contratos e empresas estão relacionados às transferências?
Os valores movimentados por Lucas vieram de prestadores pagos com recursos do SUS?
Qual foi o destino final das transferências?
O Conselho de Ética da Câmara de Belém abrirá processo contra Mayky Vilaça?
Quais providências serão tomadas pelo PL após a apuração interna?
A crise já provocou um abalo na direita paraense. Transformar esse abalo em investigação criminal, processo político ou arquivamento dependerá da qualidade das provas - e não do volume das acusações. Entre a “bomba” apresentada no estúdio e uma eventual responsabilização existe um caminho que passa por perícia bancária, rastreamento do dinheiro, contraditório e decisão das autoridades competentes.
A sociedade paraense e brasileira aguarda por respostas das instituições públicas de fiscalização e controle.
Assista aqui a entrevista de Zezinho Lima ao jornalista Diógenes Brandão, no PODERCAST.
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